O défice de participação da sociedade civil portuguesa é o primeiro responsável pelo "estado da nação". A política, economia e cultura oficiais são essencialmente caracterizadas pelos estigmas de uma classe restrita e pouco representativa das reais motivações, interesses e carências da sociedade real, e assim continuarão enquanto a sociedade civil, por omissão, o permitir. Este "sítio" pretendendo estimular a participação da sociedade civil, embora restrito no tema "Armação de Pêra", tem uma abrangência e vocação nacionais, pelo que constitui, pela sua própria natureza, uma visita aos males gerais que determinaram e determinam o nosso destino comum.

quinta-feira, 30 de março de 2017

quarta-feira, 29 de março de 2017

Supremo Tribunal: condomínios não podem proibir alojamento local


O Supremo Tribunal de Justiça deu razão à proprietária que tinha sido proibida pelo condomínio de ter um alojamento local no seu apartamento, contrariando a decisão do Tribunal da Relação de Lisboa.

O Supremo Tribunal de Justiça deu razão esta terça-feira, 28 de Março, ao alojamento local face aos condomínios.
Em causa está um recurso da decisão do Tribunal da Relação de Lisboa, que tinha dado razão a uma assembleia de condomínios que tinha proibido uma proprietária de explorar a actividade de alojamento local no seu apartamento, instalado no dito condomínio.
A decisão foi tornada pública esta quarta-feira, 28 de Março, pela sociedade de advogados que representou a proprietária.
In: Negócios de 29.03.17

O Gerónimo (Apache) também era bravo e, na volta, lixou-se!

(Nota da Redação: Titulo inspirado na frase:"Os indios também eram bravos e na volta foderam-se" que invadiu as paredes de Lisboa, lá pelos idos de 1975, assinada pelo Movimento Anarquista)


Um pescador esperto


terça-feira, 28 de março de 2017

CARTA ABERTA AO JEROEN DIESELBOING (ou lá como é...)

Caro Sinhor, sou um cidadom europeu, do Puorto, o tal que foi eleito "Béste Déstineixion 2016", mas in antes tamvém já tinhamos o mesmo galardom em 2012 e 2014... portantanto nada de nobo!

Mas diga lá uma coisa: bocê já cá beio??? Já sei: num pode bir porque estaba a fazer o Mestrado ... aquele que disseram que bai-se a ber e afinal num tinha!

Mas benha, carago! Bocês in antes de dizer essas tangas debeis bir cá e fazer tipo uma rota das tascas e da noite! Era a mêma coisa que dizer "ai e tal os países do centro da europa que até alguns diz que bibe abaixo do níbel do mar, num pode gastar o guito em tulipas, batatas fritas e festibais da canção e depois aumentar os juros dos empréstimos dos países que têm a melhor pomada e as gaijas mais boas (digo-lhe, meu amigo, que bocê armou um giga do carago em Ermesinde...)! Quer dezer, aqui no sul todo...(mas cuidado... se bocê bier ó Puorto num diga que somos do sul... senão leba um enxerto que até lhe introduzem um doutoramento na mona em 3 tempos...)

Bocê sabe o que é o presunto da "Badalhoca"? ... atençom: num tamos a falar de ninguém do centro da europa! É o nome duma tasca! Bocê já bebeu um tinto do Douro, num bou falar do Barca Belha pra num fazer puvlicidade... ou até uma Super Bock? Bocê sabe o que são Tripas á moda do Puorto?? Num seja murcom, carago! Benha cá!!! Bocê já biu o nosso mulherio todo produzido na noite??? Já as biu ó sol na Foz??? Aton cale-se, carago!

Cum a milhor comida do mundo e as mulheres mais jeitosas, querem que o pobo gaste em quê??? Produtos tóxicos dos Bancos que faliram e que bocês num fizeram a ponta dum corno pra ebitar? Certicados de aforro que num bale um carago?

Deixe-se de tangas!!! Benha cá que depois de ir ber a náite bocê apanha uma cardina e isso passa-lhe!!! Eu até acho cajente gasta pouco nisso! Já agora: o que é para si gastar o guito em mulheres??? Bocê conhece o Bloco de Isquerda num conhece? Para já: eles bão-se passar! Aton e a malta que é abstémica e num gosta de mulheres??? Esses som poupados por natureza? É desses que bocês gostam? A díbida de Portugal num conta coeles??? Antes de avrir essa boca, carago, veja com quem fala!!! Nós num somos os ingleses que se põem a bulir mal cheira a granel!!! Ponha-se fino, murcom do carago!!!!

(texto escrito com o acordo ortográfico do Porto)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Eurexit (ainda a propósito do pequeno holandês, sem memórias)

Parece que já ninguém gosta da Europa. Uns, porque têm saudades do mítico Estado-nação, das suas queridas fronteiras e policias, das moedas nacionais e dos câmbios em que se perdia sempre duas vezes, da inflação e das desvalorizações; outros, porque não gostam da ideia de existirem jurisdições acima das nacionais onde os cidadãos se podem queixar dos abusos do seu próprio Estado ou de haver uma lei comum que estabelece as regras em matéria de direitos laborais, empresariais ou ambientais; outros porque não querem mais imigrantes – seja de fora da Europa seja da própria Europa, como é o caso dos ingleses; e outros ainda porque não querem uma política de defesa comum, uma política externa comum e, menos ainda, uma política fiscal comum, como é o caso dos irlandeses e dos holandeses. E há os que estão fartos de que a Europa se meta nos seus assuntos internos, impedindo-os de estabelecerem regras mais próprias de ditaduras do que de democracias, como sucede com os húngaros, os polacos ou os aspirantes turcos. Finalmente, temos os países do sul, que se queixam da falta de solidariedade dos do norte, do sufoco das dividas públicas e bancárias a que estão sujeitos (e que em parte foram contraídas para safar os biliões emprestados sem critério pelos governos e bancos dos países ricos do norte), e temos os países do norte que acusam os do sul de gastarem o dinheiro em copos e mulheres (não, não são só o capataz holandês e o policia alemão que pensam assim).
Luva branca

Os copos e as mulheres ainda é o lado para que dormimos melhor – sobretudo quando a acusação vem de um holandês. O que nos custa é que quem nos quer dar lições de bom comportamento financeiro seja ministro das Finanças de um pais que serve de sede fiscal às nossas vinte maiores empresas para lá pagarem parte dos impostos por riqueza criada aqui e que aqui deveria ser cobrada. Porque o Eurogrupo, a que Dijsselbloem preside, exige que todos cumpram regras comuns em matéria de controlo do défice público, mas não quer nem pratica nem pratica regras comuns em matéria de fiscalidade – o que permite que a Irlanda e a Holanda funcionem como oásis fiscais e o Luxembourgo, que durante anos foi governado pelo actual presidente da comissão, Juncker, tenha então funcionado como uma lavandaria de topo para as grandes empresas multinacionais e nacionais.

Mas isso, o direito de pernada sobre coisa alheia, vem na tradição da Holanda: sempre foram um povo com vocação para a pirataria. Mesmo na chamada “Golden Age” da Holanda (um período que coincide com os sessenta anos de reinado dos Filipes em Portugal), a prosperidade das Sete Províncias Unidas fez-se com base na transformação das matérias-primas que outros, como os portugueses, iam buscar longe e correndo todos os riscos, e a imensa frota que então construíram destinava-se a pilhar as colónias alheias, em lugar de fundar as próprias. Foi assim que os holandeses se lançaram à conquista do Pernambuco português, convencidos de que guerras e a colonização que ocupavam o imenso império espanhol levariam Madrid a alhear-se do destino de parte da terra brasileira do seu vassalo português. Há, no Brasil, uma persistente lenda, segundo a qual, os trinta anos de ocupação holandesa do Pernambuco foram toda uma época de esplendor e progresso, bem ilustrada pela fantástica “Embaixada cultural” que Maurício de Nassau para lá terá levado. A versão portuguesa, em que confio mais, é outra: assim que desembarcaram no Pernambuco, os holandeses começaram por arrasar a capital, Olinda (que depois os portugueses reconstruiriam), justificando-o com a plausível razão de que não estavam habituados a defender elevações, mas apenas terras planas. Em seu lugar, Maurício de Nassau (que foi um bom administrador) lançou-se na construção de uma cidade com o seu nome e que hoje se chama Recife – mas onde, curiosamente, não há vestígios da passagem dos holandeses no que quer que seja. E a tão falada Embaixada cultural do Príncipe de Nassau resumia-se ao seu médico pessoal, um botânico, um físico, um ilustrador e um pintor.

Este, Peter Post, pintou exactamente 24 quadros no Brasil, os quais Maurício de Nassau levou de volta (isto quando durante a “Golden Age” holandesa se pintaram cerca de dez milhões de telas, fazendo deste o mais profícuo e um dos mais notáveis períodos de toda a história da pintura). De facto, e infelizmente, os portugueses nunca tiveram a visão e a vocação de registar em pintura os lugares que descobriam, que desbravavam ou que colonizavam. No Pernambuco, estavam demasiado ocupados em repelir os ataques dos indios, em fazer agricultura e em explorar imensas plantações de cana-de-acuçar  - justamente o alvo dos holandeses.

Estes, por seu lado, não padeciam dos grandes desígnios dos portugueses, tais como converter indios à sua fé, enviar bandeirantes pelo interior, explorar novos territórios. Nem sequer faziam agricultura e, menos ainda, queriam explorar a cana-de-acuçar. Eles queriam apenas comprar o acuçar dos plantadores portugueses, tentar melhorar o seu processamento e trazê-lo para a Holanda para o vender umas cem vezes mais caro, através da Europa: o monopólio do comércio e do transporte de um produto disputadíssimo na Europa, sem o esforço, os riscos e as doenças que a sua exploração exigia. Não por acaso, certamente – e contrariando a lenda do entusiasmo com que o Brasil recebeu os holandeses e a tristeza com que os viu partir – a aventura brasileira da Holanda começou a ter fim nas duas decisivas batalhas de Guararapes, em 1648/49, quando 4500 holandeses foram desbaratados por um exército de 2200 homens daquilo que então se podia chamar a “nação brasileira”: um batalhão de portugueses comandados por João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, um batalhão de negros comandado pelo ex-escravo Henrique Dias e um batalhão índio comandado pelo índio Felipe Camarão.

Tenho o maior prazer em recomendar a leitura da história ao sr. Dijsselbloem.

Mas talvez se devesse ir ainda mais além na instrução histórica básica do presidente do Eurogrupo. Recordar-lhe que foram os países do sul que ele tanto despreza, que edificaram as fundações da Europa que hoje conhecemos, impondo os seus valores, hoje universais, contra os “bárbaros” do norte. A Grécia deu à Europa a democracia e a arte; a Itália deu-lhe o Império Romano, uma das mais notáveis criações politicas da Humanidade, fundado na lei e na igualdade das partes, e deu-lhes o Renascimento, contra o obscurantismo então reinante; Portugal e Espanha abriram o mundo à Europa, e a França deu-lhe os valores da Revolução Francesa. O que deu o Norte de comparável?

Sim, esta Europa que Dijsselbloem simboliza e representa já não serve ninguém e não interessa a ninguém. Os dez anos de presidência do português Durão Barroso, com a sua política de sempre, em todos os cargos que ocupou – ou seja, salvar a pele, nada fazendo – foram fatais para a Europa. Mantendo-se sempre à tona, flutuando sem sobressaltos perante cada problema, a Europa foi apanhada impreparada perante as crises qua e viriam a assolar e hoje navega à deriva, sem rumo nem praia à vista. Esta Europa, que daqui a dias celebra 60 anos de vida, foi uma extraordinária criação de uma notável geração de políticos europeus, que agora se arrasta para um fim sem sentido nem glória, conduzida por uma notável geração de medíocres. Talvez o destino dos povos não seja o de saberem ser felizes, mas o de estarem eternamente insatisfeitos. De vez em quando, isso é bom; outras vezes é trágico.

Por Miguel Sousa Tavares, in Expresso de 25.03.2017


domingo, 26 de março de 2017

Europa, Calvino e Roma, a propósito das bocas de um tal Jeroen Dijsselbloem



Por Henrique Monteiro, in Expresso de 25 de Março de 2017


O muito falado Jeroen Dijsselbloem comentou, a propósito da sua infeliz frase, que aquilo que disse “pode ser explicado com a cultura de rigor holandesa, a cultura calvinista”.

É interessante que se invoque uma cultura religiosa, embora isso na Holanda não seja assim tão estranho.

Mais interessante, porém, é chamar-lhe rigor. O que significa isso? Para muitos, tanto no Norte da Europa como entre a esquerda do Sul, o catolicismo romano é o responsável pelo nosso atraso, ao passo que o protestantismo (e o calvinismo) seria a alavanca do rigor, das boas contas e do progresso.

Ora isso é historicamente falso, como mostra um livro de Maquiavel escrito antes de haver reforma (“Ritratti dele cose dell’ Alemagna, 1508-1512) no qual o autor de “O Principe” escreve que os alemães são muito mais aforradores. Onde os florentinos gastam em festas e roupas, os alemães arrecadam para os anos maus, especifica.

Naturalmente, Max Weber, quando publicou “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, não levou Maquiavel em conta .

Há ainda que dizer que o calvinismo utilizou um terror capaz de fazer inveja à Inquisição. Calvino, em Genebra, nomeou agentes para irem de casa em casa indagar a religião de cada um; aboliu todos os feriados e, apesar de ser francês, decidiu expulsar da cidade pessoas lá nascidas. De sua ação redentora fez parte o que, comummente, se chama caça às bruxas” misturada com uma severa ditadura. Curiosamente este “rigor” daria origem a várias igrejas, entre as quais a calvinista Igreja Reformada Holandesa (existiu até 2004, com dois milhões de membros, quando se fundiu com outras três). Foi também esta a levar, com os boers, o rigor à Africa do Sul, teorizando o apartheid, ou segregação racial.

A “cultura de rigor holandesa, a cultura calvinista” não é melhor ou pior do que a cultura de “rigor” portuguesa. Claro que ninguém é responsável pelos actos dos seus antepassados, a não ser numa visão carregada de preconceito. Era este rigor que a cultura de Dijsselbloem lhe devia ter ensinado.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Jeroen Dijsselbloem originou já uma montagem para lhe dar razão: existem mulheres e álcool também em Portugal

Como se vê Costa bebe, é do Sul e está na companhia de mulheres (montagem provavelmente feita a pedido de Dijsselbloem)

Uma resposta, à altura da Arte das Caldas, para um holandês pequeno

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, acusou o Sul da Europa de desperdício de dinheiro em "copos e mulheres", durante a crise que conduziu aos resgate financeiro de países como Portugal, Grécia ou Espanha. E recusa pedir desculpas.

Resposta ao pequeno holandês
22 DE MARÇO DE 2017. DN. Ferreira Fernandes

Ah, o que o noticiário de ontem me trouxe de arte e luxúria! Passeei-me pela Holanda, quando ela era grande e não só entreposto de impostos dos outros. Rembrandt em autorretrato, uma mão pousada no nadegueiro da sua mulher Saskia e outra levantando o cálice. Mulheres e copos. Vermeer é mais vinho branco, límpido como as suas sedas. Frans Hals, em Jovem e a Sua Amada, faz ambos de maçãs de rosto tão vermelhas que só pode ser do tintol que o rapaz levanta em glória. Já Gerard ter Borch, pintor dos ricos, só tem garrafas de cristal trazidas por criados. Jan Steen, pintor de tascas (bordeeltjes, cenas de bordel ou tabernas, são mesmo um género da grande pintura flamenga), no óleo Vinho Holandês, com uma bêbada de seio nu e coxas ao léu, homem com a mão marinhando pela perna dela e um querubim, nem 6 anos, já abotoado ao copo. Gabriel Metsu vai com a mulher, Isabelle de Wolf, para a taberna e pinta o casal agarrado, entre si e ao vinho. Copos e mulheres... E eu, confesso, não gastei o meu dinheiro num curso rápido sobre a pintura holandesa.

Como a gente te topa bem...
Limitei-me a ler uma brochura da Académie Amorim, fundação de Américo Amorim, um homem do Sul da Europa, grato ao vinho e à cortiça. A brochura chama-se O Copo de Vinho na Pintura Holandesa na Idade do Ouro, porque os verdadeiros europeus estão gratos à grande Holanda. Já para responder a Jeroen Dijsselbloem, um curso rápido de arte portuguesa chegava: um caralho das Caldas para ti, pequeno holandês.

terça-feira, 21 de março de 2017

Porque é que os reformados ricos querem vir para Portugal



Por Tânia Pereirinha, in Observador, 11 de Março de 2017


A ministra sueca das Finanças diz que os reformados só vêm para Portugal para não pagarem impostos. Será? Michael e Mita vieram por causa da luz, Pekka e Tuulikki para salvar 10 mil orquídeas.



Florida, Caraíbas ou Mónaco? Com a criação do regime fiscal especial para residentes não habituais (RNH), o que passou a dar foi Faro, Lisboa ou Estoril. Foi aprovado em 2009, entrou em vigor no ano seguinte, e em 2013 sofreu alterações, que o libertaram de grande parte da burocracia que até então exigia. Foi o que bastou para Portugal se transformar no mais novo paraíso fiscal para reformados estrangeiros. Tudo porque, ao seu abrigo, as pensões privadas auferidas lá fora não são tributadas nem nos países de origem nem em Portugal — privilégio que se prolonga durante dez anos completos.


Que vantagens é que esta lei pode trazer? Maddalena di Santo, italiana de 34 anos que há dois decidiu trocar vida e (des)emprego em Roma por uma carreira como “consultora de transferências para Portugal”, explica. Com exemplos: “Em Itália, as pensões provenientes de fundos privados podem ser taxadas até 56%. Isso significa que pessoas com pensões elevadas podem ter benefícios mesmo muito bons em Portugal. Imagine que lá recebiam 4 mil euros por mês — aqui ficam com 10 mil”. Não admira que em Roma e arredores já se fale, qual êxodo bíblico, na fuga dos reformados para o nosso país.

Como é óbvio, os italianos não são os únicos a aproveitar a benesse fiscal. Que o diga — como disse recente e diretamente ao seu homólogo Mário Centeno — Magdalena Andersson, ministra sueca das Finanças, que considera inaceitável que o sistema português não cobre impostos. “Se se mudam para Portugal, porque gostam de fado ou vinho verde, ou porque adoram o clima, então devem poder fazê-lo. Mas, se se mudam só para evitar o pagamento de impostos, então acho que devem olhar-se ao espelho e pensar se querem mesmo tomar essa decisão“.

Adeus Nice, olá Monte Estoril

Foi pelo clima, pelas pessoas, pela segurança e pelos preços baixos — que de vinho verde nem são grandes fãs — que os suecos Michael e Mita (diminutivo de Margareta) Zell se mudaram para Portugal. O facto de poderem estar isentos de impostos durante os primeiros dez anos, garantem, não foi determinante. “Em 2012, quando viemos, o RNH já existia mas não estava propriamente a funcionar, havia um grande ponto de interrogação sobre o assunto. A questão dos impostos só chamou a atenção das pessoas para Portugal. Foi uma jogada muito inteligente, dá-vos mais prós em relação a outros países. Agora… a pior razão do mundo para mudar para algum lado são os impostos! Viemos para cá porque a costa é maravilhosa, as pessoas são simpáticas, o tempo é ótimo, os preços são baixos e os filmes são legendados em vez de dobrados. Ouvir o Sean Connery a falar em espanhol ou alemão é horrível”, explicam, na sala de estar do apartamento que compraram num condomínio fechado com piscina no Monte Estoril, a 500 metros do mar.


Quando em 2009 se mudaram para Hong Kong, onde Michael assumiu funções de responsável para a Grande China do Handelsbanken, um dos maiores bancos suecos, onde Mita também trabalhava, já sabiam que a próxima paragem seria a reforma — ela só tinha 52, mas ele já ia nos 58, só lhe faltavam dois anos para poder parar e descansar. Também já tinham a certeza de que não passariam os anos dourados na fria Suécia: “Como muitos suecos, somos um pouco avessos ao clima. É muito escuro”. Portugal, que nem um nem outro conhecia, é que não era sequer uma hipótese em cima da mesa.

Queriam mar, calor e dias compridos, de preferência na Europa e numa cidade onde Mita pudesse continuar a trabalhar. Nice, com uma sucursal do Handelsbanken, reunia todas as condições. Pelo menos em teoria: “Eu podia trabalhar, ele ia velejar. Passámos lá uma semana, à procura de apartamento e a conhecer a cidade. Voltámos tão deprimidos… Tentámos ser educados e falar com as pessoas no pouco francês que conhecíamos, mas elas não nos tratavam bem. Vimos 20 ou 25 apartamentos e eram todos muito caros, longe de tudo e do mar, e as taxas de crime eram altíssimas. Tive de repensar tudo: adorava o meu trabalho mas eu e o Michael conhecemo-nos tarde, somos ambos divorciados, eu tenho dois filhos e ele tem três, temos de recuperar o tempo perdido, desisti”.

Portugal começou a desenhar-se como cenário possível em maio de 2011, quando visitaram Lisboa — onde o pai de Mita tinha trabalhado anos antes de ela nascer — numa viagem com um grupo de outros reformados. “A experiência foi completamente oposta: o dobro da simpatia e metade dos preços, nas casas, na comida, na bebida, em tudo. Além disso, tínhamos muitos amigos em França, o caminho já estava tão batido… Decidimos dar uma hipótese a Portugal, esta é a nossa aventura!”

Há cinco anos e dois dias a viver oficialmente no país (o balão vermelho com o número 5, a um canto da sala, denuncia a celebração do fim de semana anterior), Michael e Mita, agora com 66 e 60 anos, não tencionam voltar a mudar de morada. Muito menos quando acabarem os dez anos de isenção de impostos possibilitados pelo RNH: “Não vamos a lado nenhum, o que quer que Portugal tenha perdido nos primeiros 10 anos (e na verdade não perdeu nada, a Suécia é que perdeu os nossos impostos), vai ganhar depois”.

Ela é presidente da delegação da SWEA em Lisboa, uma organização internacional de apoio às mulheres suecas no estrangeiro; ele faz parte da Câmara de Comércio Luso-Sueca e da direção da Svenska Skolan, a Escola Sueca, em Carcavelos, onde duas vezes por semana tem aulas de português.

Garantem que, mais do que fazer parte da comunidade, querem devolver-lhe tudo o que têm recebido. E não se importam de pagar juros: “Portugal tem estado numa situação difícil, temos tantos benefícios em estar aqui, queremos ajudar a resolver os problemas. Os RNH e os vistos dourados podem ajudar a impulsionar o crescimento, os reformados ricos (e não só, há muita gente nova a chegar) trazem dinheiro à economia, os preços das casas sobem, há dinheiro a entrar. Nós, suecos, somos pessoas frugais, mas aqui gastamos o máximo que podemos: pomos a roupa na lavandaria, vamos ao cabeleireiro, comemos fora pelo menos duas vezes por semana. Quando chegámos, organizámos vários jantares, para umas 25 pessoas, com oradores que nos falavam sobre impostos, política, história e costumes portugueses. No final, toda a gente pagava 50 euros extra, para o orador doar a uma organização à sua escolha. Ajudámos órfãos, mães solteiras…”


19 mil residentes não habituais em 3 anos


Quando Michael e Mita se mudaram, há 5 anos, a SWEA Lissabon tinha 32 membros. Hoje tem 210. Na Svenska Skolan há 62 crianças inscritas, o máximo desde que foi fundada, em 1956. Ao todo, estimam, haverá entre 500 e 600 suecos a viver atualmente em Portugal.


Não são a única nacionalidade em crescimento, diz Vasco Silva, que em 2015 deixou uma carreira na banca para fundar a Kleya, empresa que presta serviços de consultoria a estrangeiros em processo de mudança para Portugal: “Nos últimos anos também se mudaram muitos franceses e italianos para o país. Os suecos foram apenas os primeiros a testar o sistema. Foram o primeiro grupo a perceber que a lei funcionava e a tirar partido disso”.


Sem fazer distinção de nacionalidades, a Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais divulgou que em 2014 eram 1.014 os estrangeiros registados ao abrigo do RNH. Em 2015 juntaram-se-lhes mais 7.414 pessoas. E no ano passado outras 10.684. Em 2017 a tendência deverá manter-se, dizem Vasco Silva e Maddalena di Santo.

“Entre telefonemas e emails, recebo 60 pedidos de informação por dia, é de loucos. Em Itália as coisas não estão bem, há muitos problemas, a nível político, de desemprego, de insegurança, até de poluição. As pessoas de idade estão com muito, muito medo. Nos últimos anos entraram no país muitos imigrantes que não conseguiram emprego, pela primeira vez vemos pessoas a dormir nas ruas. Portugal é uma espécie de oásis, os italianos vêm para cá para jogar golfe, ir a restaurantes, apanhar sol e aproveitar o ar livre”, explica a consultora.

Por outro lado, também há quem venha só por causa dos benefícios fiscais, diz a italiana. O que faz com que a ministra sueca das Finanças não esteja tão errada assim: parte dos conterrâneos que tem ajudado a fixar residência no Algarve só permanecem no país os 184 dias por ano que a lei obriga — nem mais um.



Para serem elegíveis ao RNH, os reformados só precisam de não ter residido em Portugal nos cinco anos anteriores à candidatura — e de mudar não apenas a morada mas também a residência de facto para o país, onde têm de permanecer pelo menos durante seis meses mais um dia por ano. “Esta parte é muito pouco falada, mas este regime também é para os portugueses. Todos os que emigraram, não tiveram residência cá nos últimos cinco anos, e fizeram fundos de pensões lá fora, também não serão taxados”, explica o fundador da Kleya.


Que o Algarve (com um ou dois éles) era um paraíso para reformados estrangeiros ricos já toda a gente sabia. O alarme mental de Vasco Silva começou a soar em 2012 quando percebeu que Cernache do Bonjardim (perto da Sertã) estava a encher-se de imigrantes seniores e abastados que não falavam uma palavra de português. “Foi aí que percebi que havia muita gente com capacidade económica para vir passar a reforma a Portugal e decidi abrir a empresa.”


A funcionar desde abril de 2015, a Kleya Premium Living trata de tudo o que alguém prestes a mudar-se para um país estrangeiro, para passar a reforma ou investir, pode precisar: “Estudamos o ciclo por que passa alguém que queira fazer esta mudança, desde a fase de recolha de informação até aos desafios burocráticos e logísticos, passando pela parte imobiliária. Temos um serviço para cada fase, somos consultores, brokers e até concierges, no início a barreira cultural e linguística é difícil de ultrapassar, somos praticamente mordomos dos nossos clientes”, explica.


“O facto de esta lei permitir isentar a taxação de rendimentos auferidos fora de Portugal, combinado com os acordos de dupla tributação que todos os países da OCDE têm, está a atrair muita gente que vem para cá ganhar dinheiro e investir. Mas não me parece que venham para cá apenas por isso. Se fosse apenas por causa dos impostos, podiam ir para Malta, para Chipre ou para as Cayman. As pessoas mudam-se para cá pela qualidade de vida, pela segurança e pelo clima.”


Margaret Bradley, inglesa dos arredores de York a viver em Ponte de Lima desde o ano passado, diz que concorda, só utiliza outras coordenadas: “Quem quer fugir aos impostos muda-se para as Turks and Caicos ou para o Mónaco, não para Portugal. Ninguém muda de país por causa de impostos, só os milionários!”


Aposentada, prestes a completar 70 anos, não veio cá parar por acaso: em 1966, durante um curso de espanhol na Universidade de Leeds, “que também incluía um pouco de português”, passou o Verão entre Coimbra e Lisboa, em formações organizadas pela Fundação Calouste Gulbenkian.


Gostou tanto que, já licenciada, se candidatou a um lugar de leitora na Universidade de Lisboa, onde ficou dois anos. “Como a universidade não me pagou durante três meses, tive de ir trabalhar para o Cambridge School. Foi nessa altura que conheci o Steve, o meu marido, também inglês, que trabalhava lá e no British Council — onde acabei entretanto por conseguir também emprego. Sempre dissemos que um dia íamos morar em Portugal.

Antes, trabalharam em vários países: “Vivemos no Irão, Bahrein, Afeganistão, Sri Lanka, Camarões, Costa do Marfim, Guiana Inglesa e Namíbia, sempre a trabalhar para o British Council. O Steve depois continuou, mas já foi sem mim, o Damien, o meu filho do meio, adoeceu e eu tive de voltar para York, fiquei a gerir uma guesthouse”.


Algarve? Não, obrigada


Como a maior parte dos britânicos no país, Margaret e Steve apontaram para o Algarve quando decidiram procurar casa para morar. Até que pararam para almoçar num restaurante, algures na serra de Monchique, e deram de caras com um letreiro, em inglês: “Também temos ementa em português”. “How outrageous!”, recorda, “devia ser exatamente o contrário! O Algarve está descaracterizado, está cheio de sol, areia, golfe e estrangeiros que só convivem entre si e não fazem ideia dos sítios incríveis que Portugal tem. Não queríamos estar num sítio assim”.

Andaram em prospeção por Portugal inteiro, à procura de um sítio para morar. Passaram pela Serra de São Mamede, pelas Beiras, por Bragança, Coimbra, Trás-os-Montes e Minho. Acabaram por decidir que o canto superior esquerdo do país era o mais “encantador”: “Fomos várias vezes a Ponte de Lima, decidimos comprar um pedaço de terra e construir lá quando voltámos a um restaurante e os donos nos reconheceram —lembravam-se de nós, estávamos em casa!”


Claro que nem tudo é perfeito. Os suecos Michael e Mita não compreendem por que faz mais frio dentro de casa do que fora dela, nem os meandros da burocracia, que os obriga a “ir às 7h00 da manhã tirar uma senha nas Finanças para só ser atendido às 16h00”; Margaret vive numa cidade onde não só chove frequentemente como, no inverno, as temperaturas médias são bem reduzidas. E também não percebe por que motivo as obras da casa que está a construir só avançam quando ela ou o marido lá estão para supervisionar o processo: “Agora está quase, mas demorou imenso tempo. Só quando lá estás é que eles trabalham. E como nós andamos sempre entre Ponte de Lima e York…”


No caso de Margaret e Steve, as idas frequentes a Inglaterra prendem-se com o filho do meio, diagnosticado com narcolepsia no final da adolescência, depois de quatro anos de consultas, testes e exames inconclusivos. “Faz 35 anos em abril e vive sozinho, mas, como um dos sintomas da narcolepsia dele é a ataxia, de vez em quando cai e fica paralisado, absolutamente consciente mas sem se conseguir mover. Não fico descansada quando fico longe dele durante muito tempo. E também não o podemos trazer para cá, toma medicação subsidiada pelo serviço nacional de saúde britânico, que não conseguimos mesmo pagar, são 12 mil libras por ano. O que estou a tentar fazer, em Portugal e no Reino Unido, é falar com pessoas para criar uma organização mundial para os doentes com narcolepsia. É aquilo a que chamam uma doença órfã, rara, as farmacêuticas não estão interessadas em investir numa cura, não traz dinheiro.”


Como não beneficiam da isenção de impostos ao abrigo do RNH — a reforma que recebem vem do Estado inglês e não de um fundo privado de pensões —, Margaret e Steve não têm um período obrigatório de permanência em Portugal.


Pekka e Tuulikki Ranta, finlandeses atualmente em processo de mudança para a zona de Belém, depois de já terem morado em Viana de Castelo, Coimbra e na cidade da Horta, no Faial, até têm. Mas isso não lhes faz diferença nenhuma: “Chegámos a Portugal em novembro de 2011, nos primeiros três anos tivemos meio dia de férias. E no quarto tivemos um dia e meio, fomos a Beja, passámos a fronteira para Espanha, e voltámos para trás”.


20 mil quilómetros por 10 mil orquídeas


Ele, hoje com 72 anos, trabalhou durante décadas como professor universitário e engenheiro eletrotécnico; ela, com 70, foi diretora de um banco. Estão aposentados, recebem reformas privadas que não são taxadas em Portugal (apesar de a alteração à lei que o permite já ter sido feita na Finlândia, só falta a promulgação, explicam), mas nem por isso deixaram de trabalhar. Aliás, só emigraram para isso. Que é como quem diz, para salvarem a coleção de 10 mil orquídeas — “A segunda maior da Europa” — que Pekka tem vindo a construir desde que fez 15 anos, descobriu que estava a ficar míope e recebeu uma máquina fotográfica da mãe, para compensar o trauma.

“Estávamos a envelhecer. Um dia começámos a pensar em quem ia tomar conta das nossas orquídeas quando morrêssemos”, conta Pekka. Primeiro tentaram o óbvio: uma vez que nenhum dos seis filhos estava para aí virado, procuraram na Finlândia uma instituição que recebesse e cuidasse das flores, que durante anos tinham exibido no país, para mais de 200 mil pessoas, em 400 atos diferentes. Não resultou: “O Jardim Botânico de Helsínquia, quando remodelou as estufas, deitou fora uma série de orquídeas, não queríamos de todo que isso pudesse acontecer à nossa coleção. E no resto do país, de repente, fecharam quatro jardins botânicos, disseram-nos que era mais fácil estudar as plantas através de animações feitas em computador. Percebemos que íamos ter de tentar no estrangeiro”, explica Pekka, enquanto passa revista a centenas de flores hoje em exibição no Jardim Botânico da Ajuda (o resto da coleção está no Faial e dentro de 24 anos será propriedade do Governo Regional dos Açores).

As dúvidas eclipsaram-se-lhes quando, em maio de 2011, vieram a Lisboa, num misto de férias e prospeção de mercado: “Foi um quadro de Jesus Cristo que está no Mosteiro dos Jerónimos que me disse que tínhamos de vir para cá. É um quadro pequeno, escuro, nem sequer é daqueles com mais destaque, mas eu olhei para ele e tive a certeza. O quadro mudou a nossa vida”, diz Pekka com ar sério.

A sorte foi Portugal ter o clima e os níveis de luz ideais para tratar de orquídeas: “São as plantas mais fáceis de ter em casa. Há vinte anos, quando comecei a dizer isto às pessoas, na Finlândia, tinha grupos de 40 ou 50 pessoas a rirem-se de mim. Agora passo pelo mesmo cá, mas é verdade. O problema é o composto, que está a matar as orquídeas, que só precisam de cortiça no vaso. E a água, que tem muitos minerais”.

Cá, deixaram de pagar 20 mil euros por ano em eletricidade — no Inverno, quando as temperaturas descem facilmente aos -30ºC e a noite nunca acaba, tinham de substituir o sol por lâmpadas. O problema foi o que gastaram para conseguir transportar 10 mil orquídeas de Helsínquia para Viana do Castelo: “Fizemos 20 mil quilómetros no total. Primeiro numa carrinha, onde construímos um sistema de grades e conseguimos acomodar 600 orquídeas em vasos, e depois umas dezenas de outras em tabuleiros, a seguir trouxemos o resto na nossa auto-caravana. Foram três viagens, pelo caminho mais longo e perigoso, para não pagarmos as portagens, que na Alemanha são muito caras — como em Portugal, aliás”.

Agora, com a coleção repartida entre Lisboa e Faial (o Porto deverá entrar na equação em breve também), Pekka Ranta diz que tem outra missão: ensinar tudo aquilo que sabe sobre orquídeas para assegurar que, quando morrer, as plantas ficam em boas mãos. Pelo meio, vai escrevendo livros, projetando novas estufas e organizando mais exposições — a Semana das Orquídeas vai decorrer no Jardim Botânico da Ajuda entre 11 e 19 de Março deste ano.

Sobre a polémica da ministra sueca das Finanças e a isenção fiscal dos reformados estrangeiros em Portugal não tem rodeios: “Acho incrível que ela se preocupe com isso e não com os motivos por que as pessoas estão a aproveitar estes regimes. Em Portugal, quando bebemos um café e um bolo pagamos 1 euro e meio, na Finlândia pagamos 15 euros — e na Suécia é igual ou pior. Os preços da eletricidade na Finlândia subiram 300% nos últimos 15 anos; cá existem 7 cadeias grandes de supermercados, lá há duas que se reúnem todos os meses para concertar preços. Ir ao dentista em Portugal custa apenas 30% daquilo que pagamos lá. Temos cento e tal mil lagos e estamos rodeados de mar e o peixe é muito mais barato aqui. Com isto é que os governantes deviam preocupar-se!”




segunda-feira, 20 de março de 2017

O Poema Pouco Original do Medo



O medo vai ter tudo
Pernas
Ambulâncias
E o luxo blindado
De alguns automóveis


Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

o medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões continuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casa de passe
conferencias várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles


Vai ter capitais
Países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
Amantes silenciosos
ardentes
e angustiados


Ah o medo vai ter tudo

tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)


O medo vai ter tudo
Quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos



Alexandre O’Neill, in “Abandono Viciado”

sábado, 18 de março de 2017

Um Presidente Mestre de Cerimónias ou um Mestre de Cerimónias Presidente?


Mestre de cerimónias é o anfitrião (1)de um evento público ou privado. O Mestre de Cerimónias geralmente apresenta atuações como falar com a plateia em geral, fazendo com que o evento mantenha um movimento.
Consoante o evento, o MC pode até contar piadas ou anedotas, incentivar o público a dançar noticiar algum acontecimento importante, opinar sobre um determinado assunto, entre outros.

Historicamente, algumas cortes europeias e asiáticas mantinham senhores como Mestres de Cerimónias (ou algumas variantes do mesmo), responsáveis pela realização de cerimónias imponentes, como a coroação e recepções de embaixadores estrangeiros.

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Um Presidente Mestre de Cerimónias ou um Mestre de Cerimónias Presidente?

Na sociedade espectáculo em que vivemos não é raro vermos os coroados (em sentido monárquico, o equivalente republicano de eleito presidente) no papel de Mestre de Cerimónias, ou melhor, só é Presidente quem for um verdadeiro Mestre de Cerimónias!


____________________________
(1)Anfitrião: Na mitologia grega, Anfitrião era marido de Alcmena, mãe de Hércules. Enquanto Anfitrião estava na guerra de Tebas, Zeus tomou a sua forma para deitar-se com Alcmena e Hermes tomou a forma de seu escravo, Sósia, para montar guarda no portão. Uma grande confusão foi criada, pois Anfitrião duvidou da fidelidade da esposa. No fim, tudo foi esclarecido por Zeus, e Anfitrião ficou contente por ser marido de uma escolhida do deus. Daquela noite de amor nasceu o semideus Héracles. A partir daí, o termo anfitrião passou a ter o sentido de "aquele que recebe em casa". O mesmo ocorreu com sósia — "cópia humana", ou seja, semelhança humana.
Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Turismo, as boas e as más notícias


O plano estratégico para o turismo ontem divulgado tem, entre outras, a ambição de “assegurar uma integração positiva do turismo nas populações residentes”. Era bom. Vamos ver.

16 de Março de 2017, in Jornal Público

O turismo em Portugal bateu todos os recordes em 2016 e o mais provável é que o mesmo cenário se repita em 2017. Entre 2005 e 2015, segundo dados da Organização Mundial do Turismo, Portugal foi o segundo país do mundo com a maior evolução das receitas. Lisboa e Porto ganharam prémios, o número de voos e de passageiros duplicou, o número de estadas passou de uma média de 3,1 para 3,8 dias, e o sector criou 40 mil postos de trabalho. O ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, chamou-lhe um “boom asiático” — a China é a próxima aposta estratégica — e a secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, fez votos para que o bom momento não fosse efémero. Afinal, a balança comercial portuguesa seria negativa sem a componente de serviços gerada pelo turismo. Só boas notícias?

O turismo empurra a economia e é responsável pelo surgimento de novos negócios e pelo desenvolvimento de uma reabilitação urbana que sem este processo dificilmente poderia ter uma resposta pública eficaz. Esse processo tem sido alargado a cidades de média dimensão, onde se situam dois terços do alojamento local, mas subsistem assimetrias entre o litoral e o interior. De facto, os ganhos não são para todos. O crescimento tem sido sustentado numa mão-de-obra precária, com casos conhecidos de licenciados pagos a dois euros e meio à hora ou trabalho nocturno remunerado a menos de cinco euros à hora. À semelhança do que aconteceu em outras cidades da Europa, onde o turismo foi demolidor, a gentrificação ameaça os residentes e o comércio de interesse patrimonial das zonas mais cobiçadas das cidades.

Podemos criticar este processo, e devemos fazê-lo. Não podemos ser contra o turismo porque sim, mas podemos exigir regras para esta actividade como fazemos com todas as outras. Não há cidades sem história, memória ou património.

Ninguém quer cidades desabitadas, como os nossos centros históricos foram e ainda o são em certa medida, mas também não queremos cidades sem turistas. Podemos conciliar os interesses de habitantes, turistas e profissionais? Era bom. O plano estratégico para o turismo ontem divulgado tem, entre outras, a ambição de valorizar a autenticidade do país, evitar a sazonalidade do turismo, formar recursos de acordo com as necessidades de mercado ou “assegurar uma integração positiva do turismo nas populações residentes”. Era bom. Vamos ver.




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