O défice de participação da sociedade civil portuguesa é o primeiro responsável pelo "estado da nação". A política, economia e cultura oficiais são essencialmente caracterizadas pelos estigmas de uma classe restrita e pouco representativa das reais motivações, interesses e carências da sociedade real, e assim continuarão enquanto a sociedade civil, por omissão, o permitir. Este "sítio" pretendendo estimular a participação da sociedade civil, embora restrito no tema "Armação de Pêra", tem uma abrangência e vocação nacionais, pelo que constitui, pela sua própria natureza, uma visita aos males gerais que determinaram e determinam o nosso destino comum.

terça-feira, 30 de junho de 2015

it is about power and democracy much more than money and economics.

NEW YORK – The rising crescendo of bickering and acrimony within Europe might seem to outsiders to be the inevitable result of the bitter endgame playing out between Greece and its creditors. In fact, European leaders are finally beginning to reveal the true nature of the ongoing debt dispute, and the answer is not pleasant: it is about power and democracy much more than money and economics.

Of course, the economics behind the program that the “troika” (the European Commission, the European Central Bank, and the International Monetary Fund) foisted on Greece five years ago has been abysmal, resulting in a 25% decline in the country’s GDP. I can think of no depression, ever, that has been so deliberate and had such catastrophic consequences: Greece’s rate of youth unemployment, for example, now exceeds 60%.

It is startling that the troika has refused to accept responsibility for any of this or admit how bad its forecasts and models have been. But what is even more surprising is that Europe’s leaders have not even learned. The troika is still demanding that Greece achieve a primary budget surplus (excluding interest payments) of 3.5% of GDP by 2018.

Economists around the world have condemned that target as punitive, because aiming for it will inevitably result in a deeper downturn. Indeed, even if Greece’s debt is restructured beyond anything imaginable, the country will remain in depression if voters there commit to the troika’s target in the snap referendum to be held this weekend.

In terms of transforming a large primary deficit into a surplus, few countries have accomplished anything like what the Greeks have achieved in the last five years. And, though the cost in terms of human suffering has been extremely high, the Greek government’s recent proposals went a long way toward meeting its creditors’ demands.

We should be clear: almost none of the huge amount of money loaned to Greece has actually gone there. It has gone to pay out private-sector creditors – including German and French banks. Greece has gotten but a pittance, but it has paid a high price to preserve these countries’ banking systems. The IMF and the other “official” creditors do not need the money that is being demanded. Under a business-as-usual scenario, the money received would most likely just be lent out again to Greece.

But, again, it’s not about the money. It’s about using “deadlines” to force Greece to knuckle under, and to accept the unacceptable – not only austerity measures, but other regressive and punitive policies.

But why would Europe do this? Why are European Union leaders resisting the referendum and refusing even to extend by a few days the June 30 deadline for Greece’s next payment to the IMF? Isn’t Europe all about democracy?

In January, Greece’s citizens voted for a government committed to ending austerity. If the government were simply fulfilling its campaign promises, it would already have rejected the proposal. But it wanted to give Greeks a chance to weigh in on this issue, so critical for their country’s future wellbeing.

That concern for popular legitimacy is incompatible with the politics of the eurozone, which was never a very democratic project. Most of its members’ governments did not seek their people’s approval to turn over their monetary sovereignty to the ECB. When Sweden’s did, Swedes said no. They understood that unemployment would rise if the country’s monetary policy were set by a central bank that focused single-mindedly on inflation (and also that there would be insufficient attention to financial stability). The economy would suffer, because the economic model underlying the eurozone was predicated on power relationships that disadvantaged workers.

And, sure enough, what we are seeing now, 16 years after the eurozone institutionalized those relationships, is the antithesis of democracy: Many European leaders want to see the end of Prime Minister Alexis Tsipras’s leftist government. After all, it is extremely inconvenient to have in Greece a government that is so opposed to the types of policies that have done so much to increase inequality in so many advanced countries, and that is so committed to curbing the unbridled power of wealth. They seem to believe that they can eventually bring down the Greek government by bullying it into accepting an agreement that contravenes its mandate.

It is hard to advise Greeks how to vote on July 5. Neither alternative – approval or rejection of the troika’s terms – will be easy, nor do both carry huge risks. A yes vote would mean depression almost without end. Perhaps a depleted country – one that has sold off all of its assets, and whose bright young people have emigrated – might finally get debt forgiveness; perhaps, having shriveled into a middle-income economy, Greece might finally be able to get assistance from the World Bank. All of this might happen in the next decade, or perhaps in the decade after that.

By contrast, a no vote would at least open the possibility that Greece, with its strong democratic tradition, might grasp its destiny in its own hands. Greeks might gain the opportunity to shape a future that, though perhaps not as prosperous as the past, is far more hopeful than the unconscionable torture of the present.
I know how I would vote.

Joseph E. Stiglitz https://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Stiglitz
https://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Stiglitz
The writer is a Nobel laureate in economics and University Professor at Columbia University.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O paradoxo, a causa e a solução*

Portugal é um paradoxo.

Por um lado é o único pais da Europa e um dos poucos no mundo que foi à falência em pouco mais de três décadas (78/83/2011). Já foi ultrapassado em PIB per capita por cinco países do alargamento (Malta, Chipre, Eslovénia, Rep. Checa e Eslováquia) e tem a produtividade mais baixa da zona Euro (mesmo apenas 84% da grega que contudo tem menor % de população activa e maior taxa de desemprego).

Por outro lado, tem oito coisas para ser dos países mais ricos do mundo. Uma localização excelente entre os dois blocos económicos mais ricos do mundo; a 11ª maior zona marítima mundial; um clima ameno (sem tufões, nevões, verões tórridos); o português é a 5ª língua mais falada no mundo; e o 6º maior mercado mundial; um pais seguro; e uma força de trabalho apreciada no exterior (inquéritos colocam os portugueses sistematicamente entre os mais estimados).

Como explicar este paradoxo?

A causa remonta a D. Luís da Cunha (mentor do Marquês de Pombal) que numa carta lhe referiu que os países pequenos necessitam mais de estratégia que os grandes, porque aqueles carecem dos recursos destes para se reerguerem em caso de queda.

No zénite do seu poder (1578), Portugal afastou-se da sua core competence com que criou o seu império: batalhas marítimas, ataques a fortificações e cidades costeiras, metendo-se pelo deserto a dentro para dar uma batalha campal, algo que não fazia há mais de cem anos (desde a batalha de Toro da sucessão dinástica ibérica em 1476).

Resultado: não houve nem plano de batalha, nem sequer ordem de inicio de combate. Morreu o rei. A elite. E de um exército de 23.000, cem (!) escaparam.

As consequências foram três. No curto prazo o centro de decisão passou para Castela e as possessões portuguesas negligenciadas foram tomadas pelos holandeses e ingleses, de Ormuz, a Salvador, a Luanda.

No médio prazo uma emigração incessante. E no longo prazo um circulo vicioso entre a emigração (em quantidade e qualidade) e o declínio (políticos, económicos, social e cultural).

Hoje Portugal tem 5 milhões de portugueses registados nos consulados no exterior e nos anos recentes o fluxo tem aumentado em quantidade e qualidade.

Depois de Malta, Portugal é o pais europeu com maior percentagem de população no exterior.

A solução é reconhecer como José Hermano Saraiva que somos poucos (15 milhões), mas se formos todos seremos suficientes e assim criar sinergia entre os 5 do exterior e os 10 do interior.

Em quatro áreas: turismo (só 4 em 10 brasileiros que passam pela Portela pernoitam em Portugal); social, facilitando p.e. a aquisição de segundas residências e o acesso às universidades e o acesso às universidades (há residências 42 milhões de jovens entre os 15-24 anos nos CPLP); económica (usar a diáspora para agentes de exportação para além do mercado da saudade); e financeira (benefícios fiscais aos residentes no exterior).

Em Janeiro uma iniciativa da AICEP reuniu mais de trinta líderes da diáspora que apresentaram 42 medidas para criar sinergia: desde o voto da internet, até articular as câmaras de comércio com as delegações da AICEP nas acções promocionais no exterior, até acabar com a dupla tributação dos reformados que regressam a Portugal (que em teoria acabou mas na prática não).

Em conclusão, criar sinergia entre os 5 e os 10 para transformar Portugal de um pais periférico na Europa em central no mundo.

Tal requer medidas e acções concretas.

Não discursos. Nem planos. Lembrando Shakespeare que dizia que “ a acção é a maior das eloquências” e Churchill cujo motto era “acção hoje”.



*Jorge A. Vasconcellos e Sá
Mestre Drucker School PhD Columbia University
Professor Catedrático
In “ Vida Económica” de 26 de Junho 2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Benfica

Associação Alemã de Viagens publica video de promoção, o SL Benfica é descrito de forma completa e extraordinária.

sábado, 20 de junho de 2015

Poema aos homens constipados - Lobo Antunes


Pachos na testa, terço na mão,

Uma botija, chá de limão,

Zaragatoas, vinho com mel,

Três aspirinas, creme na pele

Grito de medo, chamo a mulher.

Ai Lurdes que vou morrer.

Mede-me a febre, olha-me a goela,

Cala os miúdos, fecha a janela,

Não quero canja, nem a salada,

Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

Se tu sonhasses como me sinto,

Já vejo a morte nunca te minto,

Já vejo o inferno, chamas, diabos,

Anjos estranhos, cornos e rabos,

Vejo demónios nas suas danças

Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo

Ai Lurdes, Lurdes fica comigo

Não é o pingo de uma torneira,

Põe-me a Santinha à cabeceira,

Compõe-me a colcha,

Fala ao prior,

Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,

Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.

Faz-me tisana e pão de ló,

Não te levantes que fico só,

Aqui sozinho a apodrecer,

Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer


António Lobo Antunes –
(Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)










terça-feira, 16 de junho de 2015

domingo, 14 de junho de 2015

A burqa também existiu no Algarve: era o bioco e dava liberdade à mulher

Por Idálio Revez
14/06/2015 – in jornal Público

No século XIX, um antigo governador civil que não gostava de ver as mulheres todas tapadas decretou a abolição do uso do trajo tradicional de todas as ruas e templos. Agora, foi recriado um bioco moderno mas a cabeça fica destapada.

A mulher algarvia, há pouco mais de um século, também usou burqa mas sem conotações religiosas. À capa negra que se estendia da cabeça aos pés e só permitia ver os olhos, foi dado o nome de bioco ou rebuço. Um antigo governador civil, em nome da nova civilização, decretou que este traje tradicional fosse banido das ruas e templos. Agora, o bioco está de volta em versão moderna, com outras histórias para contar.

O antigo governador civil de Faro, Júlio Lourenço Pinto, nascido no Porto, viu nesta peça de vestuário “vestígios da dominação muçulmana” que entendia não terem razão de existir no final do século XIX. Vai daí, extinguiu o bioco. No seu livro de crónicas O Algarve, publicado em 1894, justifica: Trata-se de uma “máscara” que poderia dar azo a certas libertinagens. Uma das razões invocadas prende-se com a fidelidade conjugal. Imagine-se uma “frágil pecadora” que, vestida de forma a não ser reconhecida, poderia atirar-se “sem perigo a aventura amorosa-romanesca ou a façanha de infidelidade conjugal”, afirma. Por isso, servindo-se dos poderes que lhe estavam conferidos, decretou: “É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biocos de que as mulheres se servem escondendo o rosto”, refere o artigo 32, do Regulamento Policial do distrito, publicado a 6 de Setembro de 1892.

Lurdes Silva, natural do Porto, “apaixonou-se” pelo bioco quando visitou o Museu do Trajo, em São Brás de Alportel – local onde se podem encontrar cópias de alguns exemplares. O amor à primeira vista por uma peça de vestuário, confessa, não é coisa rara. Mas, neste caso, houve mais do que isso. Esta professora da Universidade do Algarve, na área nas ciências económicas e empresariais, sentiu necessidade de mergulhar na cultura da região. “Levei dois anos a investigar a história desta peça”. Por fim, decidiu partilhar os conhecimentos e começou a produzir biocos colocando, no forro da peça, a história deste vestuário contada em português e inglês. Em 1922 no livro Os Pescadores, Raul Brandão dizia que se tratava de “um traje misterioso e atraente”, que alimentava especulações. Numa passagem da obra, referindo-se às mulheres de Olhão, escreve: “Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos”.

Mas qual é relação da burqa com o bioco? A burqa, diz Lurdes Silva, é uma “imposição masculina, aqui passa-se o contrário: o homem não quer que ela use, mas ela usa para ter mais liberdade”. Por conseguinte, os três modelos que concebeu, com design de Maria Caroço, puxam pelo lado estético da peça, sublinhando as histórias amorosas e o sentido da liberdade. Por isso, cada um tem a sua designação: mistério, tradição e paixão. O preço dos modelos recriados varia entre os 139 e os 159 euros.

Assim, a novidade deste Verão é um bioco, de um tecido leve, com grafitti assinado por Sen Silva – um artista com várias obras públicas em Olhão e com vários trabalhos expostos numa galeria em Almancil. “Tanto pode ser usado numa cerimónia, como numa festa sunset”, diz Lurdes Silva, referindo-se ao bioco “mistério”, uma peça sugerida pela cantora Viviane, a artista que integra o projecto ”Rua da Saudade”, em homenagem ao poeta Ary dos Santos, e canta “Do Chiado até ao Cais, e que se rendeu à recriação deste traje regional. As cores predominantes são o verde/figueira, o azul lusco-fusco do pôr-do-sol algarvio e o tijolo dos mercados de Olhão. Uma colecção destas peças vai estar patente ao público, na FIL, em Lisboa, entre 27 de Junho a 5 de Julho, numa mostra dedicada à inovação. Para já, no Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela, está patente, até 12 de Julho, na parte da tarde, uma exposição de biocos da autoria da artista plástica Joana Bandeira.

Bioco, um mito bem guardado

Mas nos finais do século XIX, a visão de Júlio Lourenço Pinto estava longe deste recente entusiasmo pelo bioco já que considerava que este não passava de um vestígio da cultura islâmica “sem elegância nem beleza”, feito de um tecido “negro sepulcral”, que não se coadunava com evolução civilizacional. Com alguma semelhança a este traje encontra-se o capelo, da ilha Terceira – que ainda faz parte do folclore açoriano e se tornou símbolo dessa região. No Algarve, a extinção oficial deu-se em 1892. Porém, continuou a ser usado em Olhão até meados dos anos 30 do século XX. O director do Museu do Trajo em São Brás de Alportel, Emanuel Sancho, diz que não passa de “um mito” a relação que se estabeleceu entre esta peça e o véu islâmico. “Há um século tapava-se a cabeça em toda a Europa – desde a Holanda, onde não havia biocos, até à Inglaterra e à França”, observa.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

Necessidade/ Solidariedade: Um acto de comércio como outro qualquer!

Em Inglaterra, a cadeia de supermercados Waitrose, oferece uma moeda (uma chapa) a cada cliente que faz compras acima dum determinado valor.
O cliente, à saída, tem, normalmente, três caixas, cada uma em nome duma instituição social sediada no município, para receber as referidas moedas, de acordo com a opção do cliente.

Periodicamente, são contadas as moedas de cada caixa e a empresa entrega em dinheiro, à respectiva instituição, o valor correspondente, donativo esse que, diminui os seus lucros mas, também, tem o devido tratamento em termos de fiscalidade.

Em Portugal, as campanhas de solidariedade custam ao doador uma parte para a instituição, outra parte para o Estado e mais uma boa parte para a empresa que está a “operacionalizar” (?!...) a acção.

Um país de espertos... até a ajuda aos mais necessitados não escapa.
Entretanto nós ficamos quietos e calados, ou então, estupidificamos voluntariamente...
Triste, muito triste, mas é bom saber...

Leiam s.f.f. e repassem.

Programa de luta contra a fome. Nada é o que parece.

Ora vejamos:

Decorreu num destes fins de semana mais uma ação, louvável, do programa da luta contra a fome mas,....atentem no seguinte e façam o vosso juízo!

A recolha em hipermercados, segundo os telejornais, atingiu cerca de 2.644 toneladas! Ou seja 2.644.000 Kilos.

Se cada pessoa adquiriu no hipermercado 1 produto com vista à doação e lhe custou, digamos, 0.50 € (cinquenta cêntimos), faça a seguinte conta:

-2.644.000 kg x 0,50 € dá 1.322.000,00 € (Um milhão, trezentos e vinte e dois mil euros), total pago, à vista, nas caixas dos hipermercados.

Conclusões:

a) Este “excesso” de consumo não ocorreria sem a campanha; Daí que constitua, pelo dito “excesso”, sempre um “bom negocio” para os supermercados.

b) Sem este consumo, exclusivamente motivado pelo binómio: necessidade/solidariedade, o Estado não auferiria o respectivo IVA daquelas transações “a mais”, assim como o IRC gerado nas contas dos supermercados, uma vez que, tal aumento de facturação, influencia obviamente o seu resultado anual, na medida do lucro liquido respectivo.

c) Mas...quanto auferiram, “à priori” o Estado e os Supermercados?

1. o Estado, pelo menos: 304.000,00 € (23% iva),acrescendo o IRC(?);

2. o Hipermercado, brutos: 396.600,00 € (margem de lucro de cerca de 30%).

3. Ora :1.+2.= €700.000,00 (setecentos mil euros).

Recorde-se que o volume do “negocio” motivado pela necessidade versus solidariedade, que as péssimas condições económicas dos destinatários ocasionam, foi de: €1.322.000,00 (Um milhão, trezentos e vinte e dois mil euros), logo:

Mais de 50% daquilo que você dá aos necessitados (mais precisamente: 52,95%) fica-se pelo Estado e Hipermercados...

Poucos reparam, tal como eu, em quem mais, comprovadamente, engorda com estas campanhas...

A ação da recolha e os milhares de voluntários que realizaram esta tarefa, são dignos da maior consideração social. Por parte de qualquer cidadão e não menos por parte do Estado! Mas que Estado?

O legislador (assembleia da República e, ou, Governo) (mandatário do cidadão-eleitor que lhe paga o salário) continua deslealmente distraído porquanto, face a tamanho desmando, apesar da sua estrutural verborreia legislativa, mantem uma lei do Mecenato cujo contributo é absolutamente inexistente, quando se lhe impunha ocupar-se da realidade que a todos entra pelos olhos adentro, concedendo ao binómio necessidade/solidariedade, os benefícios fiscais adequados ao mesmo, não o fazendo, ao serviço do confisco e seus apaniguados, num estado de direito formal, materialmente amputado, no seio do qual, cada vez com mais frequência, vai valendo tudo...

Na verdade, enquanto o Estado Social vai definhando, o Estado Cobrador de Impostos que o neoliberalismo vai impondo, conserva-se insensível às movimentações sociais de solidariedade promovidas pela iniciativa privada, típicas dos estados liberais, que pretende ser, na busca, pela via do absurdo, de soluções sociais de um “tipo novo” absolutamente invisíveis aos olhos dos mais atentos observadores e historiadores.

Na senda da receita e do negócio à boleia da necessidade/solidariedade do povo é útil voltar a recordar a catástrofe da Madeira – exemplo das circunstâncias especialmente propícias à verificação, destas mais valias - pela via da desgraça alheia, sendo sempre bom não esquecer:

- Porque é que os madeirenses, receberam apenas dois milhões de euros (2.000.000,00) da solidariedade nacional, quando o que foi doado foram dois milhões e 880 mil euros (2.880.000,00)?

Querem saber para onde foi esta "pequena" parcela de 880.000,00 € ???

A campanha a favor das vítimas do temporal na Madeira, através de chamadas telefónicas constituiu um atentado à solidariedade e um insulto à necessidade que a determina.

Pelas televisões, a promoção rezava assim: Preço da chamada 0,60 € + IVA.

Perfazendo 0,72 € no total.

O que dolosamente não se disse, é que o donativo que chegou (!!!) ao beneficiário madeirense foi de apenas 0,50 €.

Assim, oferecemos 0,50 € a quem carece da solidariedade, mas cobram-nos 0,72 €, mais 0,22 €, ou seja, 30%.

Quem beneficiou com esta diferença?

1º - a PT com 0,10 € (17%), isto é, a diferença dos 50 para os 60.
2º - o Estado com 0,12 € (20%), referente ao IVA sobre 0,60 €.

Através duma campanha de solidariedade motivada por uma catástrofe - as chamadas/doação - a PT manteve a sua margem de lucro, como se nada de socialmente relevante se passasse e o Estado, pela via do IVA, encaixou cirurgicamente a sua receita, fazendo vista grossa sobre a solidariedade efectiva como se duma chamada telefónica se tratasse, o que, convenhamos, constitui uma evidência inquestionável sobre a natureza da moral oficial e a sensibilidade dos colectores de impostos e da lei que os move e enquadra.

Ora, a RTP anunciou, com imensa satisfação, que o montante doado atingiu os 2.000.000,00 €.

Esqueceu-se, sintomaticamente, de informar que o povo solidário suportou mais 44%, ou seja, mais 880.000,00 €, repartidos entre a PT (400.000,00 €) e o Estado (480.000,00 €).

Assim, enquanto a PT, manteve a sua margem de lucro de 17%, num puro acto de solidariedade, o Estado, fez incidir o IVA, sobre um produto da mais pura generosidade, como se de um acto comercial se tratasse!!!

TRATAR A SOLIDARIEDADE COMO UM ACTO DE COMÉRCIO É UMA IMORALIDADE TOTALMENTE INACEITÁVEL E INDIGNA DE UM ESTADO DE DIREITO EM CONFESSADO ESTADO DE NECESSIDADE.

PARA ALÉM DE UM TRISTE ESBULHO À BOLSA DOS CIDADÃOS, CONSTITUI UMA AVILTANTE E PERIGOSA AMEAÇA Á SOLIDARIEDADE DO POVO PORTUGUÊS, o único activo de muitos de nós!


É dever de qualquer um de nós: DENUNCIAR!

sábado, 6 de junho de 2015

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Haja Deus(2)! Agora as galinhas!


O Ditador que vai pagar o ordenado ao Jorge Jesus


Teodoro Obiang surge associado à ida de Jesus para o Sporting. A Guiné Equatorial é um país do tamanho do Alentejo, que é governada há 36 anos por um dos piores ditadores africanos.
Teodoro Obiang vai ser o dono do Sporting?

A Guiné Equatorial, país africano de 680 mil habitantes, tem uma área ligeiramente inferior à do Alentejo. Aos comandos da nação - composta pela ilha de Bioko, onde fica a capital, Malabo, e uma zona continental entre os Camarões e o Gabão - está, há 36 anos, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, considerado um dos piores ditadores africanos por várias organizações internacionais. Nascido durante a era colonial na então Guiné Espanhola, fez formação militar em Saragoça e foi um elemento importante do Governo do seu tio Francisco Macías Nguema, primeiro Presidente após a independência, conquistada em 1968. Em 1979, Obiang depôs o tio num golpe de Estado sangrento.

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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Haja Deus! e Caracóis também!

O grupo de activistas Acção Directa usou a sua página no Facebook para reagir às críticas de que tem sido alvo. Em causa está uma campanha em defesa dos caracóis, um petisco muito apreciado pelos portugueses nesta altura do ano.

A associação defende no Facebook que “estes animais sentem e por tal sofrem nas circunstâncias em que são instrumentalizados”. A campanha foi muito partilhada nas redes sociais – uns defendendo-a, outros ridicularizando-a.

“Só tenho uma coisa a dizer: atrasados mentais. Ah e outra coisa: Mudem de fornecedor porque a que vocês andam a fumar deve estar estragada” e “Isto é gente que come calhaus da calçada e mesmo assim não podem ter fungos...” são alguns dos comentários divulgados na página da Acção Directa.

“Infelizmente muito do feedback que obtivemos foi-nos dado de forma violenta, agressiva, ameaçadora e profundamente ignorante. Sabemos que esse é um claro sinal da eficiência da nossa iniciativa mas sabemos também que muitos dos activistas que deram a cara por esta campanha foram vítimas de comentários vários, impregnados de baixo nível e má educação. Este tipo de campanha veicula o respeito por todos os animais e, incompreensivelmente numa parte da população, está a gerar a antítese daquilo que defendemos. Questionamos como pode a defesa de um animal gerar uma onda de tanto ódio?! Todavia, a nossa página é “A nossa Casa” por isso não toleramos o tipo de linguagem que tem aqui sido proliferada”, escreve o grupo de activistas na sua página oficial naquela rede social.

“Pedimos desculpa a todos os activistas que participaram e especialmente a quem nos apoia. Pretendemos proteger quem connosco luta, por isso estamos também a apagar certos comentários e a proceder ao bloqueio e denúncia de muitas das pessoas que comentaram ofensivamente. Contamos com a vossa paciência e compreensão, este tipo de acção torna-se bastante polémica, especialmente por ainda vivermos numa sociedade retrógrada e discriminatória. No entanto, a vulnerabilidade a que possamos estar sujeitos é positivamente contrabalançada pela repercussão que podemos alcançar e estamos, assim, mais motivados a continuar com a nossa campanha. Manteremos a publicação das inúmeras fotos que temos em nossa posse e daremos continuidade à mesma sempre que nos for possível. Estamos também a planear uma próxima acção no âmbito desta campanha”, acrescentaram.

“Lembrem-se que isto não é sobre nós. É sobre os animais não-humanos que defendemos e pelos quais damos a nossa cara. É sobre Libertação Animal, seja ela humana ou não-humana. Somos todos animais. E com a certeza que nenhum de nós deve ser explorado e instrumentalizado, continuaremos a lutar até todos os animais serem livres”, conclui o grupo.
Joana Marques Alves in: ”Sol” 03/06/2015

terça-feira, 2 de junho de 2015

Portugal visto por António Lobo Antunes

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.

Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.

Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos.

Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estoico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.

O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão.

O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal.
Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver:
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo
que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores, que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.

As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos semdificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.

Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito.
Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis.

Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair.

Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar.

Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.

Agradeçam a Linha Branca.

Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.

Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.

Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa.
Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?

O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

António Lobo Antunes


Armação de Pêra em Revista

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