O défice de participação da sociedade civil portuguesa é o primeiro responsável pelo "estado da nação". A política, economia e cultura oficiais são essencialmente caracterizadas pelos estigmas de uma classe restrita e pouco representativa das reais motivações, interesses e carências da sociedade real, e assim continuarão enquanto a sociedade civil, por omissão, o permitir. Este "sítio" pretendendo estimular a participação da sociedade civil, embora restrito no tema "Armação de Pêra", tem uma abrangência e vocação nacionais, pelo que constitui, pela sua própria natureza, uma visita aos males gerais que determinaram e determinam o nosso destino comum.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Ninguém morre de véspera

Regressemos ao final de 2015, ao momento em que António Costa surpreendeu o país com o acordo parlamentar que proporcionou a "geringonça" que nos tem governado. Lembremo-nos do tom patibular de Cavaco Silva, da deselegância política com que reagiu ao entendimento parlamentar que reconduziu a esquerda ao poder. Recordemos o "roadshow" revanchista que a antiga maioria promoveu pelo país, tentando incendiá-lo politicamente contra a nova solução governativa. Elenquemos as "cassandras" (nas quais me incluo) que davam por certa a incompatibilidade entre socialistas e os companheiros da "frente popular". Tenhamos presente as previsões que garantiam que Bruxelas, que detesta ver a "esquerda da esquerda" perto do poder, iria fazer vergar o primeiro orçamento, esmagar com sanções o défice herdado dos seus "amigos" e criar uma guerrilha permanente que transformasse este num verão em que do calor não resultassem só incêndios. E quantos não foram, à pressa, reler a detestada Constituição, tentando perceber os meses que faltariam para que o futuro presidente de direita dissolvesse o Parlamento, convocasse eleições e retornasse os seus ao poder?

O futuro é sempre mais imaginativo do que os homens. A maioria, embora sacudida pela chantagem do sindicalismo paleolítico e por umas flores legislativas "fraturantes" que a sua natureza obrigou a adotar, demonstrou uma inesperada capacidade para trabalhar em conjunto. Com maior ou menor esforço e sucesso, ultrapassou algumas crises, como a dos contratos de associação com o ensino privado, polémicas de conjuntura, como a demissão de João Soares ou os governantes "voadores", ou ratoeiras herdadas do passado, como o Banif ou a Caixa.

A crise das (não) sanções acabou por gerar um momento de indignação nacional, que atrapalhou a oposição e colocou o país atrás de António Costa. O Euro futebolístico acabou por reforçar o otimismo com que o sorriso do primeiro-ministro tem vindo a acalmar um país que, em boa medida, viveu estes meses num surto de alguma esperança, de recuperação de rendimentos e de uma "oxigenação" salutar do seu quotidiano.

Seria de uma grande injustiça não pôr também a crédito do novo presidente da República uma fatia importante da descrispação que o país atravessa. Mas não nos iludamos. Por muito boa vontade que Rebelo de Sousa pudesse ter, se tudo se tivesse desconjuntado, por exemplo, em matéria de finanças europeias, as coisas não estariam como estão.

Em perspetiva, há que convir que a "geringonça" soube ultrapassar os grandes testes com que foi confrontada. Até ver, a avaliar pela nervoseira raivosa que provoca nos seus opositores, saiu "melhor do que a encomenda". O futuro? É só amanhã! Ninguém morre de véspera.

Por Francisco Seixas da Costa, Agosto 2016

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